JUNHO 14, 2013 

Governo dá indicações de que a maior parte do energético novo deve ficar com unidades da Petrobras e térmicas na boca do poço.

O protagonismo da indústria no desenvolvimento do mercado brasileiro de gás natural está ameaçado. Com a perda de competitividade do energético e de fôlego da economia, Petrobras e governo dão sinais de que têm outros planos para o combustível e que pretendem direcionar a maior parte da produção do pré-sal e do eventual gás onshore não convencional aos próprios projetos da petroleira e à expansão termelétrica.

O Plano de Negócios 2013-2017 mostra que a Petrobras reviu suas contas, indicando que a indústria deixou de ser prioridade. Em comparação com o PN anterior (12-16), a companhia cortou quase 40% do volume de gás novo destinado às distribuidoras em 2020 – de 26 milhões de m3/dia para 16 milhões de m3/dia. Por outro lado, a petroleira espera aumentar em 19 milhões de m3/dia a destinação de sua produção para o próprio consumo até o fim da década, seja no refino ou nas fafens (unidades de fabricação de fertilizantes).

“É uma mensagem ruim para a indústria. Pode-se traduzir isso como falta de prioridade. Não é no desenvolvimento de mercado que a Petrobras vai alocar os dólares escassos. Ela vai tentar desenvolver o upstream, especialmente o óleo, e dar uma destinação mais fácil e menos onerosa ao gás”, opina a sócia diretora da Gas Energy, Sylvie d’Apote.

Por trás da opção pelo autoconsumo está o boom do agronegócio no país e o aquecimento do mercado de combustíveis. Ambos tornam uma alternativa rentável a venda do gás para fafens e unidades de geração de hidrogênio nas refinarias.

Entretanto, para o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, o aumento do consumo próprio da Petrobras não deve tirar a importância da indústria no desenvolvimento do mercado do energético. “Vai haver crescimento na indústria, nas refinarias, nas fábricas de fertilizantes, tanto para a indústria quanto para a Petrobras. Temos de considerar que as fafens fazem parte da indústria”, pontua.

Procurada pela Brasil Energia, a Petrobras não comentou o assunto. Fontes do mercado, contudo, indicam que a escolha foi tomada diante das incertezas quanto à real oferta.

Na boca do poço

Além do autoconsumo da petroleira, a indústria pode perder espaço possivelmente para as termelétricas. Hoje fora dos leilões por falta de disponibilidade de gás e por não conseguir concorrer com as eólicas, a geração de energia está sendo vista pelo governo como o principal motor de desenvolvimento do gás onshore.

Recentemente, o secretário de Desenvolvimento e Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Altino Ventura Filho, admitiu – embora sem descartar a destinação para outros fins – que a prioridade para a nova oferta de gás onshore será a geração de energia elétrica. Isso dispensaria custos com gasodutos e simplificaria a infraestrutura necessária ao escoamento do energético.

“Queremos ligar essa produção de forma direta às linhas de transmissão, para abastecer o sistema, e também viabilizar uma grande produção de amônia e ureia no Centro-Oeste, para impulsionar a produção agrícola do país”, diz a presidente da Petrobras, Graça Foster.

Em road shows para investidores, no Brasil e no exterior, a EPE tem trabalhado com a expectativa de contratar 1.500 MW de térmicas a gás natural nos próximos cinco anos, a depender do sucesso do gás não convencional.

Interiorização em risco

O mercado teme ainda que a opção pelas termelétricas na boca do poço inviabilize a interiorização da malha de gasodutos. “As termelétricas são sazonais. O que vai ser desse gás no período em que elas não despacharem?”, questiona o consultor especialista em gás natural e sócio da Tomanik Pompeu Advogados Associados, Cid Tomanik Pompeu Filho.

Para o presidente da Abrace, Paulo Pedrosa, viabilizar projetos de gás onshore com termelétricas é uma opção “pobre”. “Não há dúvida que o destino mais nobre para o gás é a indústria. É lá que o gás gera mais valor, seja através do PIB, geração de renda, imposto e emprego. O que está acontecendo com a revolução do shale gas nos EUA é o renascimento da economia americana”, defende Pedrosa.

Fonte:  Revista Brasil Energia

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